O futuro da TI na Era digital

O mantra atual das organizações é se reinventar para mais conquistar e aumentar a competitividade na Era digital. Uma das transformações prega que o trabalho seja realizado em equipes colaborativas e estrategicamente distribuídas pelas empresas. O objetivo é atender às demandas do mercado com mais agilidade. Com a mudança, um dos questionamentos é sobre o futuro da área de tecnologia da Informação, TI. Será extinta, se integrará aos negócios ou se dividirá?

“As companhias estão mudando e não faz mais sentido ter silos de TI. Agora todos têm que trabalhar juntos na construção de soluções para os negócios”, defende Alberto Albertin, coordenador da linha de TI do curso de Mestrado em Competitividade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele diz que a tendência é que haja integração dos profissionais de TI com especialistas de outras unidades da companhia, como a de marketing, desenvolvimento de produtos, experiência do cliente, por exemplo. O resultado esperado é a aceleração dos processos de inovação.A tendência é a integração dos profissionais de TI com especialistas de outras unidades da empresa

O professor da FGV enfatiza que tudo está evoluindo muito rápido e a situação atual poderá ser completamente diferente daqui a seis meses. Portanto, as empresas precisam apresentar diferencial competitivo para, então, atender às demandas dos clientes com mais rapidez, mantendo a qualidade.

É exatamente para enfrentar os novos desafios que as companhias estão criando equipes ágeis, divididas em squads ou esquadrões, conceito aplicado para estruturar times multidisciplinares com independência e autonomia para a tomada de decisão.

Função da nova TI

De acordo com o professor Albertin, a TI do futuro será constituída por dois times: o de sustentação e o de inovação. O primeiro formado por técnicos responsáveis por manter o funcionamento da infraestrutura, e o segundo, composto por profissionais que se integrarão às equipes de negócios e atuarão distribuídos por toda a organização. O CIO estará à frente da liderança as duas equipes, segundo o professor.

Na visão de Pietro Delai, Latin America Cloud & Software Program Manager da consultoria IDC, a TI é hoje o negócio. Ele conta que a área automatizou primeiramente as operações da empresa e agora está passando por um processo similar para ganhar produtividade com ganho de escala. Muitas das aplicações migraram para nuvem.

Com a automação da tecnologia da informação, o analista da IDC explica que o gestor da área poderá se dedicar mais aos negócios, mas com papel diferente do exercido atualmente. “O CIO do futuro será uma espécie de guru e que dará orientações aos negócios”, profetiza.Empresas estão estruturando times multidisciplinares com independência e autonomia para a tomada de decisão

A função desta área e, por consequência, de seus especialistas vem mudando e se adequando às evoluções ocorridas ao longo dos anos. “As disciplinas de TI estão cada vez mais automatizadas e não faz mais sentido os profissionais realizarem tarefas que um robô pode fazer”, afirma Tomás Roque, sócio da consultoria PwC.

Um dos desafios atuais dos gestores da tecnologia da informação é entender como dados podem trazer vantagem competitiva para os negócios. “Hoje há uma quantidade absurda de conteúdo, mas além de tudo é preciso entender a jornada do cliente, gerenciar riscos e conhecer a nova Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD, para uso dos dados com inteligência”, pontua o Roque.

“O Gartner não prevê o fim da organização da área de TI, mas acredita que os recursos de informação e tecnologia – I & T, ficarão cada vez mais dispersos pelas corporações”, informa Janelle Hill, vice-presidente global do instituto de pesquisas. Ela ressalta que o gerenciamento dos recursos humanos e digitais não serão mais controlados apenas pelo gestor de tecnologia da informação. Essa tarefa será compartilhada entre o CIO e os líderes de negócios.

Levantamentos da empresa de pesquisas, indicam que até os próximos três anos, muitos dos diretores de TI terão sua atribuição alterada pelos presidentes das empresas, para que encontrem novas formas de trazer valor para as operações. De acordo com Janelle, alguns desses executivos serão promovidos para o que ela chama de orquestrador de informações digital, com a responsabilidade de coordenar o uso dos recursos de I&T em várias unidades de negócios.

Essa função é a que se aproxima mais hoje da tarefa desempenhada pelo Chief Technology Officer – CTO, ou o profissional que responde por todas as ações que dizem respeito à infraestrutura tecnológica da companhia; que olha para o futuro para apontar e recomendar tecnologias mais modernas, considerando as novas formas de se trabalhar e gerenciar talentos críticos de TI. “Esse papel será de influência e não de gerenciamento direto”, esclarece a analista do Gartner.

Nicolau Reinhard, coordenador do curso de MBA em Gestão da Tecnologia de Informação, da Fundação Instituto de Administração – FIA, concorda que o futuro da tecnologia da informação se concentrará mais na gestão. Entretanto, pondera que a TI tradicional ainda vai existir por muito tempo em empresas que não têm maturidade no uso de tecnologias avançadas. “Este grupo de organizações vai preferir times centralizados, porque a preocupação maior será com continuidade dos negócios”, avalia Reinhard.

Barreiras para mudanças

O trabalho colaborativo entre os times de TI e negócios traz desafios para as companhias. O professor Alberto Albertin, da FGV, destaca que o novo modelo exige quatro habilidades dos profissionais. São elas: domínio das tecnologias atuais e novas; visão de negócios; noções de gestão e, as chamadas soft skills, que são as competências baseadas na inteligência emocional como resiliência, empatia e colaboração, comportamentos essenciais para a interação com outras pessoas no ambiente de corporativo.

Para o professor Reinhard, da FIA, a capacitação é um quesito importante para desenvolvimento de times ágeis. Ele destaca a necessidade de os profissionais investirem em educação continuada como cursos de especialização e MBA, Master in Business Administration, ou Mestre em Administração de Negócios.

O fator cultural também é um empecilho para o sucesso das iniciativas de transformação digital. Reinhard relata casos de empresas que tentaram contratar profissionais de startups para acelerar esse processo, porém, eles acabam indo embora, porque não encontram ambiente favorável. “Os projetos de transformação digital só funcionam se tiver apoio do presidente da empresa”, reforça.

Pietro Delai, analista da IDC, sugere que as organizações comecem as transformações pelas lideranças. A partir do momento que elas acreditarem nas ações, vão comprar a ideia e incentivar a força de trabalho a promover mudanças em favor dos negócios.

Impactos da inteligência artificial na TI

É fato que os robôs com inteligência artificial, IA (ou Artificial Intelligence, AI, sigla do termo em inglês) já estão substituindo os humanos em inúmeras e nas mais variadas tarefas. Essa realidade não é muito diferente na área de tecnologia da informação.

Inteligência artificial está presente em diversas operações da TI. Pietro Delai, analista da IDC, cita o exemplo da automação dos controles de segurança da informação para prevenção de ataques DDoS – Distributed Denial of Service, ou ataque distribuído de negação de serviço. Os sistemas de internet das coisas – IoT, e machine learning – ML, também contam com a ajuda de IA.

Os chatbots, atendentes virtuais, são outras aplicações em substituição aos agentes de call centers e especialistas humanos dos serviços de help desk. Esta tecnologia inteligente está sendo aplicada ainda para monitorar sistemas, desenvolver códigos de software, serviços de backups, diagnosticar falhas e criar interfaces para o usuário final, entre tantas outras tarefas.Os profissionais precisam se atualizar. O que é importante hoje pode não ser relevante amanhã

Tomás Roque, sócio da consultoria PwC, constata que inteligência artificial é uma ameaça para o mercado de trabalho e alerta que muitas funções deixarão de existir por causa dessa tecnologia. “Os profissionais que não se atualizarem vão ficar na mesmice. O que é importante hoje pode não ser relevante amanhã”, alerta o consultor.

É certo que tudo tem base em pesquisas e estudos, mas são projeções e expectativas. Porém, notavelmente válidas. Em 2012, o Gartner divulgava quatro previsões para o futuro da tecnologia da informação e dos Chiefs Information Officer, os CIOs.

Entre os futuros cenários e suas implicações para a área foi dito que TI seria como um provedor global de serviços, uma unidade de serviço compartilhado expandida e integrada, que funcionaria como um negócio, oferecendo serviços de TI e processos de negócios de uma empresa. O segundo tópico, a consultoria dizia que TI se apresentaria como engine room, ou seja, seus recursos seriam entregues rapidamente ao mercado a preços competitivos. A organização de TI cumpriria seus objetivos por monitoramento de tecnologia e desenvolvimento de mercado.

O terceiro item apontado é que a área de TI seria exatamente o negócio, onde a moeda é a informação, ou está intrinsecamente atrelada ao produto. TI deixaria de ser coadjuvante no processamento, mas se posiciona na cadeia de valor.

Já o quarto item apontado como tendência pelo Gartner era a colaboração e o uso frenético da informação pelos líderes de negócios. De novo, o foco é a informação e não a tecnologia pura.

À época, o Gartner também disse que os ‘novos’ CIOs iriam desempenhar um importante papel no direcionamento do futuro de uma companhia de TI, “garantindo que toda a equipe de TI esteja envolvida e interessada desde o início dos processos”. Sete anos se passaram e a tecnologia da informação continua sendo objeto de estudo.

As questões propostas no início desta reportagem, serão respondidas com certeza, em alguns anos. Enquanto isso, profissionais de TI – Engenharia e Ciência da Computação; Sistemas de Informação; Análise e Desenvolvimento de Sistemas e de Dados; e Gestão, Segurança da Informação e Redes, entre outros – precisam se preparar para o reposicionamento de sua área dentro das corporações.


Edileuza Soares
InforChannel

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