É hora de colocar a execução no centro da estratégia

Se nos provocássemos a buscar as palavras mais citadas diariamente dentro das pequenas, médias e grandes corporações, não tenho dúvidas de que entre o top 10 estariam: “inovação”, “disrupção”, “transformação digital” e “cultura empreendedora”. Todas com a ressignificação quase mágica de como guiar as organizações rumo ao sucesso. Se essa mesma provocação continuasse nos incomodando e fôssemos mais fundo nessa questão, deveríamos nos preocupar em transformar esse discurso em algo realmente sólido, prático e disciplinado. De que adiantam ideias se nos omitimos em relação à disciplina e governança para executá-las? Essa deveria, a meu ver, ser a próxima pergunta, mas como diz um grande executivo do mercado: “trabalhar cansa.”

Ao longo do tempo, tenho percebido que o vilão nunca é a tecnologia ou a metodologia aplicada, ou até mesmo a escolha do time – isso não existe. O grande desafio sempre foi e continua sendo a capacidade de execução e suas sutis distrações, que hoje em dia são disfarçadas muitas vezes de “oportunidades” que nos tiram da rota traçada. É indiscutível o aprimoramento e os investimentos, ao longo das últimas décadas, na área de planejamento, mas tão importante deve ser nossa atenção à disciplina, governança e à capacidade de execução estratégica.

Geralmente, a causa raiz de uma execução lenta, insatisfatória ou frustrante surge quando as organizações adotam abordagens carregadas apenas na ênfase do planejamento e subestimam competências e regras como otimizar a retirada de obstáculos burocráticos e institucionalizados para tornar a execução mais ágil, orgânica e dinâmica de maneira a responder prontamente às mudanças do mercado ou do negócio.

Já falei em outros textos sobre métodos ágeis. Eles continuam norteando essa revolução do processo, mas devem ser revisados e adaptados o tempo todo para a realidade do país, do setor e do seu negócio. O planejamento adequado, equilibrado e holístico é essencial em um cenário de negócios altamente turbulento (como a pandemia COVID-19 + mercado em transformação digital). Um planejamento estratégico adequado ao tempo em que vivemos deveria consistir em recalibrar e corrigir o curso constantemente das execuções e, alinhando rapidamente as pessoas em torno de novos propósitos, objetivos e visão compartilhados. Essa é a essência de uma boa entrega estratégica. Sozinhos, os planos são inúteis.

É fácil observar no dia a dia que definir uma clara governança na execução de projetos é uma ideia antiga, uma necessidade fundamental e premente para garantir agilidade e qualidade nas entregas. Mas, seja porque estamos sempre correndo atrás de resultados imediatos e infalíveis ou porque estamos resolvendo o “problema de ontem”, negociamos com muita facilidade essa parte fundamental do processo de execução em nome da inovação ou disrupção digital. É interessante como manipulamos com maestria essas palavras para justificar nosso álibi.

Na Visa, estabelecemos uma governança meticulosa de condução dos projetos, contando com um grupo multidisciplinar que trabalha em squads e modelos ágeis em parceria com os clientes e parceiros. Ou seja, além de olhar para os nossos processos, oferecemos nossa experiência como PMO para nossos clientes, monitorando as etapas de entrega, os prazos, medindo diariamente os resultados. O modelo colaborativo tende a expandir “nosso jeito de trabalhar”, nosso código de conduta para fora da organização. Mas até onde posso aplicar as minhas regras? É uma questão nova que implica diretamente na execução dos projetos.

Quando Larry Bossidy e Ram Charan escreveram um novo prefácio do best-seller Execution: The Discipline of Getting Things Done, por ocasião da crise financeira de 2008, eles reposicionaram o tema central do livro e sua importância num momento de ruptura. Vale a pena relembrar o trecho abaixo – e notar como ele se encaixa perfeitamente como um diagnóstico para os dias de hoje:

“O mundo está experimentando um rearranjo das placas tectônicas – o ambiente corporativo está sendo reprogramado. Vivemos agora num mundo no qual mudanças radicais acontecem da noite para o dia (…) essa realidade torna a execução ainda mais difícil, mas também mais importante do que nunca. A execução não apenas garante o uso eficiente de recursos em tempos de crise assim como fornece caminhos e oportunidades para seu negócio se adaptar às mudanças.”*

E voltando ao começo deste artigo: se não buscarmos a provação e o desconforto, dificilmente alcançaremos uma transformação digital na prática. As pessoas são, como sempre, fundamentais na etapa de planejamento e indispensáveis na execução. Ter um time capacitado, versátil e multidisciplinar faz com que a ideia saia do papel. E ideias executadas merecem todo o nosso respeito.

Por Percival Jatobá 
Artigo selecionado em > Canaltech

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