Egon Zehnder: O CEO Adaptativo

A adaptação também é um processo iterativo de observação e experimentação que encontra novas maneiras de se desenvolver e as aperfeiçoa

Em nossas milhares de interações com CEOs em todo o mundo, deparamo-nos com muitas personalidades dominantes: líderes que assumem o controle das reuniões, buscando direcionar os eventos a um objetivo bem definido. Mas Raj era diferente. Em vez de expor todas as questões e propor um caminho a seguir desde o início de nosso relacionamento, ele ouvia. Raj era um ouvinte ativo: fazia perguntas precisas, buscava clareza e mantinha um alto grau de foco inteligente que seria assustador se não fosse equilibrado por uma postura cordial e empática.

Isso contrastava com o hiperconfiante e dominador Mike, que Raj havia substituído recentemente no cargo de CEO de uma grande companhia farmacêutica multinacional. Aliás, quando foi escolhido para o cargo, Raj hesitou em aceitá-lo. Veterano na empresa, tendo liderado com sucesso, por muitos anos, a maior divisão dela, sua hesitação não era fruto de falta de competência. Na verdade, Raj receava que houvesse uma expectativa no sentido de ele atuar mais como Mike: um líder inflexível, incapaz de se abrir a pontos de vista diferentes. Porém, após um período de reflexão, Raj percebeu que, com coragem e convicção, poderia aceitar o cargo – e reinventá-lo de acordo com seus próprios instintos.

Mantendo-se fiel a si mesmo, Raj adotou um estilo adaptativo que lhe permitiu liderar com autenticidade pessoal.

Liderança adaptativa em tempos conturbados

Em períodos de estabilidade, os problemas costumam ser previsíveis, rapidamente compreensíveis e resolvidos recorrendo-se a um manual consagrado: basta os líderes exercerem sua expertise e autoridade já conhecidas¹. Em um ambiente instável, no entanto, pessoas e organizações enfrentam crises inéditas que exigem estratégias e habilidades novas. Os líderes ficam, então, tentados a intervir com a promessa de um “conserto”, em vez de pararem para ouvir, absorver a complexidade da situação e aprender.²

É aí que entra o conceito de “liderança adaptativa”. Ele vem da teoria da evolução: nas empresas, assim como nos organismos biológicos, as adaptações bem-sucedidas permitem que um sistema sobreviva em ambientes novos e inóspitos. A adaptação também é um processo iterativo de observação e experimentação que encontra novas maneiras de se desenvolver e as aperfeiçoa. A tarefa do líder adaptativo é mobilizar as pessoas nesse processo. Um conceito evolutivo fundamental é o de diversidade: é preciso estar preparado para empregar uma variedade de abordagens, persistindo mesmo que algumas venham a falhar. Em uma organização, isso significa criar uma cultura que busque visões diversificadas dentro e fora da empresa – o que chamamos de inteligência distribuída ou coletiva.³

Nas empresas, assim como nos organismos biológicos, as adaptações bem-sucedidas permitem que um sistema sobreviva em ambientes novos e inóspitos.

Para Raj, essas ideias eram transformadoras e combinaram imediatamente com seus próprios dons e preferências. “Aprendi sobre a adaptabilidade bem a tempo para mim, para a empresa e para o ambiente em que estamos”, reflete Raj com sua característica autoconsciência. “Ela me mostrou um caminho a seguir.”

Isso significava abandonar a ideia de que o CEO é um visionário cuja função é estimular a organização de acordo com um plano fixo. Em vez disso, Raj assumiu o cargo com um espírito criativo e humilde, uma mentalidade de escuta e aprendizagem e uma disposição para assumir riscos calculados por meio de experimentação fundamentada. Esses insights se mostraram especialmente eficientes quando o setor farmacêutico se viu na linha de frente da batalha contra a COVID-19.

Ouça e aprenda – e evolua

Raj se deu conta de que precisava ficar atento, observando de perto o ecossistema de sua empresa e ouvindo muitas opiniões antes de tomar decisões de alto risco. Quando tomava medidas, ele o fazia de maneira ousada, causando disrupção na dinâmica operacional compartimentalizada da equipe executiva. Antes, cada diretor comandava sua unidade e interagia pouco com os colegas – um sintoma da estratégia de liderança de cima para baixo utilizada por Mike. Raj reavivou o trabalho em equipe, incentivando em toda a diretoria uma predisposição a colaborar e a ter a mente aberta. “A resolução de problemas novos exige um compromisso de entender a complexidade”, refletiu Raj, “o que requer o uso de múltiplos pontos de vista. Para entendermos e aprendermos, temos que nos conectar uns com os outros de maneira muito mais estreita”. Essa mudança não prejudicou de forma alguma a prestação de contas e os compromissos individuais, que passaram a incluir a prestação de contas e o cuidado coletivos.

“A resolução de problemas novos exige um compromisso de entender a complexidade, o que requer o uso de múltiplos pontos de vista. Para entendermos e aprendermos, temos que nos conectar uns com os outros de maneira muito mais estreita.”

Para o líder adaptativo, promover essas conexões é crucial não apenas para diagnosticar problemas, mas também para estimular a organização a se transformar em reação a eles. As pessoas não mudam de imediato – temendo não tanto a mudança em si, mas possíveis perdas. Para seguirem em frente, elas devem sentir que seus pontos de vista e seus valores estão sendo respeitados. Essa abordagem relacional reforça a confiança e expande a consciência e o entendimento de todos os envolvidos: a escuta leva à aprendizagem. Alexander Grashow, escritor e teórico da liderança adaptativa, observou: “Se há um segredo para uma boa parceria, colaboração, relação, é este: esteja em diálogo, não em monólogo. A maioria das pessoas passa a vida inteira em monólogo”.4 Infelizmente, para muitos CEOs, esse comportamento se torna um hábito.

Com base em conversas produtivas em toda a empresa, Raj fez outras mudanças significativas no modelo de negócios dela: ampliou o acesso aos medicamentos, instituindo tetos de preço nas regiões mais pobres, reforçou a transparência com relação aos dados de ensaios clínicos e aumentou a colaboração com os stakeholders para enfrentar os desafios sanitários mundiais.

Ao mesmo tempo que a liderança adaptativa exige compromisso com esse tipo de inovação, ela também envolve um entendimento do que não deve mudar. Nas palavras de Ronald Heifetz e Marty Linsky, “as mudanças sustentáveis e transformadoras são mais evolutivas do que revolucionárias”5. Isso envolve identificar os valores, a cultura, os conhecimentos e as habilidades existentes na instituição e aproveitar a força deles.

A liderança adaptável também envolve um entendimento do que não deve mudar.

Um desses trunfos, Raj percebeu, era a abundância de dados de pacientes que a empresa possuía. Os líderes atentos também sabem “ouvir” os dados e entendem o valor da coleta e análise constantes de informações. Com o advento da COVID-19, os insights digitais permitiram que os executivos tomassem medidas rápidas para proteger as vulneráveis cadeias de suprimentos internacionais. Para manter a agilidade em resposta ao impacto da pandemia sobre os mercados, Raj aumentou a frequência das previsões operacionais. Isso permitiu à empresa compreender a eficácia das estratégias da organização, ficar de olho nas mudanças emergentes no comportamento dos pacientes e prever oportunidades de crescimento. Por exemplo, com a maior demanda de autocuidado, a empresa conseguiu tirar proveito de seus pontos fortes tradicionais – remédios, como analgésicos, e suplementos alimentares –, bem como de produtos novos, como kits de teste rápido.

A empresa também conseguiu migrar rapidamente a grande maioria de sua força de trabalho para um modelo de trabalho remoto durante o lockdown – experimento que se revelou vantajoso, otimizando muitos processos. Por meio de discussões e sondagens regulares, a organização continuou se comunicando com todos os funcionários, garantindo sua segurança e conforto durante a crise. Em outras iniciativas de colaboração e distribuição, a empresa fez parceria com hospitais e instituições filantrópicas de todas as regiões em que atua, a fim de garantir o fornecimento de produtos de saúde essenciais; também está trabalhando com outras empresas no desenvolvimento de uma vacina contra a COVID-19.

A maioria das pessoas tem tendências profundamente arraigadas de se ater ao que é conhecido e seguro, em vez de seguir em direção ao desconhecido.

Adotar a liderança adaptativa pode ser difícil. A maioria das pessoas tem tendências profundamente inculcadas de se ater ao que é conhecido e seguro: usar informações prontamente acessíveis em vez de seguir em direção ao desconhecido, substituir perguntas difíceis por fáceis e resistir às críticas. Sentimo-nos mais seguros quando tratamos problemas inéditos de maneiras conhecidas, em vez de trabalharmos com eles em toda a sua complexidade. Esses vieses arraigados podem nos ajudar em períodos de estabilidade, mas, ao entrarmos em uma era caracterizada por mudanças rápidas, é a liderança adaptativa do tipo que Raj exemplifica – autoconsciente, relacional, coletiva, em aprendizagem contínua – que nos fará avançar em um novo mundo repleto de incerteza.


1.Heifetz, R, Leadership Without Easy Answers, Harvard University Press, Massachusetts, 1994, 71-4.

2.Heifetz, R & Linsky, M, Leadership on the Line, Harvard Business Review Press, Massachusetts, 2002, 12.

3.Heifetz, R, Grashow, A & Linsky, M, The Practice of Adaptive Leadership: Tools and Tactics for Changing Your Organization and the World, Harvard Business Press, Massachusetts, 2009, 14-17.

4.Gast Fawcett, E, “Shh… Be Quiet and Listen”, National Center for Family Philanthropy, 20 de outubro de 2017. ncfp.org/2017/10/20/shhbe-quiet-and-listen

5.Heifetz & Linsky, Leadership On The Line, 17.

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Por Egon Zehnder

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