Entenda o papel do profissional de projetos na transformação digital

Transformação digital envolve pessoas, processos e ferramentas; é preciso saber criar um projeto ágil

A transformação digital tem três direcionadores principais: logística, plataformas online e meios de pagamento. Desde antes da pandemia, empresas desses setores vêm registrando crescimento, que se intensificou com o isolamento social e deve continuar forte nos próximos anos.

Startups de logística, como a Loggi, capitalizaram na deficiência das entregas e aproveitaram a tecnologia para impulsionar a inovação. O resultado, no caso da Loggi: crescimento de 198% em 2020.

Empresas de cloud commerce, como a Nuvemshop e a VTEX, também observaram crescimentos expressivos no ano passado. Enquanto a Nuvemshop registrou salto de R$ 0,5 bilhão para R$ 1,3 bilhão em faturamento, entre 2019 e 2020, a VTEX cresceu de R$ 3,8 bilhões para R$ 7,5 bilhões no mesmo período.

Já os meios de pagamento digitais irão crescer 50% até 2024. Os dados são do Latin America Digital Transformation Report, da companhia de venture capital Atlantico. O valor de mercado de empresas de tecnologia passou de 2,8 % do PIB em 2020 para uma projeção de 4,5% do PIB em 2021. Por isso, toda empresa hoje precisa ser também uma empresa de tecnologia.

Assim, os profissionais de projetos de todos os setores se viram diante da missão de liderar a transformação digital nas corporações. Mas por onde começar? A primeira compreensão que o profissional de projetos precisa ter é que a transformação digital envolve pessoas, processos e ferramentas. Para engajar o time, é necessário provar que o projeto entrega valor e retirar as pessoas da sua zona de conforto.

Existem vários modelos de gestão de mudança que podem ajudar esses profissionais. Para quem está iniciando nessa jornada, a recomendação é que busque conhecer os Nove Passos de Gestão de Mudança, do autor e professor John P. Kotter, e o modelo de mudança individual Prosci Adkar.

Quando falamos de ferramentas, é preciso lembrar que o método de gerenciamento precisa se adaptar ao contexto. Não há uma resposta certa padrão entre os métodos tradicional, ágil ou híbrido. Há dezenas de modelos de gestão de mudanças, os negócios são muito dinâmicos, as necessidades são diferentes e não existe mais one size fits all.

O mais importante é lembrar que qualquer empresa que realiza um processo de transformação digital visa em última instância reduzir custos e aumentar lucro. Isso pode passar pela digitalização de processos, diversificação do portfólio de produtos e serviços, redução do time to market. É função do profissional de projetos se certificar de que a transformação traga os benefícios esperados, perpetuando a mudança e garantindo que os benefícios se materializem.

Uma ferramenta que ajuda a entender a realidade da empresa e a melhor abordagem para o projeto é o diagrama de análise de contexto, que avalia o time envolvido, as áreas afetadas, a complexidade do projeto, o escopo e os objetivos.

É preciso sempre entender qual abordagem é melhor para a empresa, o negócio e o projeto específico, de modo que dentro de uma mesma empresa, é possível que haja abordagens diferentes para projetos diferentes. É importante lembrar também que as melhores abordagens são selecionadas pela equipe, não apenas pelo gerente.

A partir daí fica mais fácil entender que se o projeto não tiver espaço para alterações incrementais, não é possível usar abordagem ágil; que se a empresa não tiver clareza do desenho do produto que deseja desenvolver, só do benefício final, a abordagem experimental pode ser uma alternativa; e que se as entregas forem diárias, é possível usar agile continuous delivery.

Mas mesmo nesse estágio, o projeto só vai fazer sentido na organização se houver percepção de valor. E o valor é algo muito relativo: o dono da empresa eventualmente não tem a mesma percepção de valor que a equipe envolvida. Assim, é preciso que o profissional de projetos entenda a cadeia de valor dentro da organização e gerencie as partes interessadas, sempre compreendendo a relação de poder das pessoas e, quando necessário, priorizando as áreas com maior influência. Percepção que deve ser alinhada com o time.

Há ainda duas ferramentas interessantes para ajudar a hierarquizar a percepção de valor das áreas: o Value Proposition Canvas e o Impact Map. Mas no final do dia, a percepção de valor que mais importa é a do cliente. E para ajudar a entender o comportamento do consumidor, suas preferências e interações com a marca, a indicação é que a equipe de projetos utilize um mapa de jornada do cliente.

A equipe de projetos tem que trabalhar para o cliente, não para o projeto, ela tem que ser a voz do cliente na empresa. O cliente nem sempre está certo, mas ele sempre tem razão.

Um projeto que não tenha sido bem desenvolvido, mas que gera percepção de valor para o cliente é, para todos os efeitos, um sucesso. Por isso, o profissional de projeto tem que continuar acompanhando a receptividade do cliente ao projeto, junto com o suporte, muito depois da entrega do projeto, para garantir que a experiência do cliente seja boa.


*Nelson Rosamilha é coordenador dos MBAs em Gerenciamento de Projetos e Metodologias Ágeis e Logística e Supply Chain da Trevisan Escola de Negócios

Fonte > Exame

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