“O mentoring é parte de um escopo estratégico”

Mentoring. Ferramenta hoje também adotada pelas empresas, historicamente a palavra foi um ‘legado’ da obra Odisséia, de Homero

No poema épico, enquanto vai para a Guerra de Tróia, Ulisses contrata um amigo de confiança, com o nome de Mentor, para preparar seu único filho herdeiro enquanto ele estivesse na guerra. Ele atuaria como seu tutor. Duas características de Mentor se destacam na obra: ele era sábio e sensível. A obra legou assim ao mundo uma palavra para definir uma prática que já era adotada por grandes líderes. Mais recentemente, o mundo corporativo também a adotou como uma ferramenta estratégica.

No cenário nacional, destacam-se nomes como Paulo Erlich, que comanda a consultoria Erlich Pessoas & Organizações. Ele conta aqui um pouco sobre como atua e como é fazer mentoring.

Paulo, o mentoring é, digamos, uma atividade antiga e que já prestou serviços para muitos grandes líderes do passado. Podemos então dizer que mais recentemente as empresas também resolveram beber dessa fonte e institucionalizar esse serviço. É isso mesmo?

O mentoring existe desde os tempos mais remotos. A partir do momento em que uma pessoa passou a utilizar o seu conhecimento e sua experiência em uma determinada área para ajudar uma outra pessoa a se desenvolver em questões de trabalho e da vida em geral, aí já passou a existir o mentoring. Ocorreu que, a partir de meados dos anos 70, as empresas começaram a observar que os colaboradores que eram espontaneamente ajudados por mentores tinham uma evolução maior do que os que não recebiam essa ajuda. Aí as organizações passaram a utilizar formalmente o mentoring para alcançar melhores resultados. Isso começou nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo.

O que exatamente um mentor faz numa empresa?

O mentor informa e orienta o mentorado sobre as questões de trabalho e carreira e sobre os meandros da organização. Protege-o de situações que comprometam a imagem profissional. Quando o mentorado evolui, o mentor dá a ele visibilidade para que pares e superiores percebam o seu progresso. E até o patrocina, defendendo para ele melhores posições na organização. Além disso, o verdadeiro mentor tem uma atitude de aceitação das pessoas, gosta de gente em sentido geral, gosta de ajudar. O mentor dispõe-se a aconselhar e a servir de “caixa de ressonância” confiável para explorar e avaliar conflitos internos do mentorado derivados de sua vida profissional. Com isso, o mentorado ganha mais autoconhecimento e autoconfiança.

Nas empresas, ele atua contratado como um prestador de serviço?

Habitualmente, não. No ambiente organizacional, os mentores são geralmente voluntários. Eles são convidados e se oferecem para esse trabalho de suporte a outros colaboradores. Porém existem mentores profissionais. São pessoas de largo saber e experiência em seus campos de atuação que podem apresentar-se ao mercado oferecendo seus serviços de orientação. Mas isso não significa que vão atuar como fazem os consultores e treinadores. O verdadeiro mentor faz o outro evoluir pelo compartilhamento de sua bagagem através de um relacionamento interpessoal. Esse aspecto relacional é fundamental. Por isso não adianta apenas ter grande conhecimento e experiência em uma área. É preciso também saber relacionar-se e, nessa interação, promover o compartilhamento.

O que diferencia o trabalho do mentor informal do formal?

O mentor informal é aquele que passou a contribuir espontaneamente com quem se tornou seu mentorado. Simplesmente as pessoas se conheceram, aproximaram-se e o processo de mentoring fluiu. O mentor teve vontade de ajudar e o mentorado, de receber essa ajuda. Às vezes, elas nem têm consciência de que o mentoring está acontecendo. Já o mentor formal é aquele que é convocado por alguma organização para entrar em um processo de mentoring promovido por ela.

O mentor, quando vai atuar em um segmento de mercado que ele desconhece, chamado por uma determinada empresa, ele precisa antes de tempo para se apropriar daquela realidade ou ele já tem que ter uma visão ampla que o habilite para tal?

O verdadeiro mentor só atua no segmento de mercado em que ele tem grande conhecimento e experiência. Caso contrário, essa pessoa não estará agindo eticamente e não será um verdadeiro mentor.

E quais são os principais benefícios e impactos que devem resultar da intervenção de um mentor?

No mentoring organizacional, os efeitos positivos são gerados para todas as partes: mentorado, organização e o próprio mentor. Os mentorados podem alcançar maior rapidez e mais qualidade no aprendizado, maior rede de relacionamentos, maior possibilidade de ascensão funcional, maior satisfação com o trabalho e com a carreira, menor nível de estresse. Já os mentores ganham benefícios como, entre outros, satisfação pessoal por colaborar com o crescimento do outro, mais satisfação com a carreira, melhor desempenho no trabalho, maior rede de relacionamentos, reconhecimento e valorização. E as organizações logram benefícios vários, como a redução de custos.

Que mercado, globalmente falando, mais demanda um trabalho de mentoring?

Há três segmentos em que, globalmente falando, o mentoring é mais aplicado: nas organizações, no ambiente acadêmico e nas comunidades (para ajudar o desenvolvimento de crianças e jovens em situação de risco social). Porém o mentoring pode ser adotado em qualquer contexto em que haja necessidade de desenvolver pessoas nos mais diversos sentidos.

É sempre de natureza estratégica o trabalho de mentoring ou há casos em que a questão é de ordem prática e requer apenas um olhar mais experiente?

O mentoring deve sempre fazer parte de um escopo estratégico, ter alinhamento com os objetivos de quem o promove. Por exemplo, nas organizações é imprescindível ter claro o que se pretende atingir. Disseminar conhecimentos específicos que poucos possuem? Acelerar a adaptação de trainees? Desenvolver lideranças? Ter processos de sucessão mais efetivos? Manter talentos? Saber contrabalançar bem seus ativos tangíveis e intangíveis e, principalmente, o ativo pessoas, é chave para o sucesso de uma empresa, certo?

De que forma o mentoring pode contribuir para o equilíbrio dessa equação?

O mentoring pode contribuir pelo que de mais essencial ele pode fazer: desenvolver pessoas, torná-las mais competentes para desenvolver o que precisam para atingir as suas metas individuais e as metas da organização. Além disso, o mentoring tem uma faceta humanista, que facilita a geração de ambientes em que as relações interpessoais são mais harmônicas, saudáveis. Tudo isso fortalece e valoriza o ativo pessoas, ajudando na difícil tarefa de a atingir o equilíbrio dessa balança.

Por Valerya Abreu
Diário do Nordeste

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